terça-feira, fevereiro 28, 2006

Tolerância

Enquanto Mundo segue preocupado com coisas de somenos a mim o que me incomoda é o Carnaval: o Carnaval mais português de Portugal; o Carnaval mais brasileiro de Portugal, o mais português do Brasil, o mais veneziano de Torres Vedras ou mais gaúcho de Veneza. Carnaval, carnaval, carnaval: será possível imaginar ocasião mais profundamente abjecta que multidões aos saltos, sacudindo com uma violência inusitada as banhas, os ossos, os beiços, as gadelhas no calor do Rio, ou no frio do Inverno português; as crianças conscientes ou inconscientes passeando transformadas em Robin dos Bosques, em princesas, em Zorros, em figuras esdrúxulas e assustadoras que na verdade ninguém reconhece, sufocando de calor nos carrinhos dos centros comerciais; ou garotos de meia idade fascinados com as máscaras, com o engano, com a diversão de uma transgressão que não é realmente tão irreverente assim.

Por trás desses traços eternos de Pierrot estarão sempre as mesmas engelhadas rugas que fazem de nós os mais patéticos dos seres, só porque nunca podemos tirar essas caraças concretas. Por mais festas que frequentemos nunca chegará o final em que como nos filmes sensíveis a personagem descansa da luta do mundo e se torna ele próprio numa paisagem mais ou menos natural, de preferência com o sol a pôr-se.

Não convém acabar com esta última ilusão, a de que podemos ser apenas nós próprios. No fim desse baile, desabaria toda a nossa vida, porque quando tirarmos as nossas máscaras, arrancaremos as dos outros de uma penada.

Acabam-se os confetis, param os tambores, o samba morre seco nas batidas da pele amolecida e só resta a cor gasta do suor que escorre dos corpos dormentes. Abrimos os olhos e tudo se resume. Alguém grita, puxa os fatos de faz de conta e a ilusão reaparece. Porque é só assim que podemos viver.

E ainda bem que assim, porque quando só sobra a realidade, como dizia Nelson Rodrigues, só sobra o suicídio, a loucura ou o crime.

Toleremos o Carnaval.
K. 20:35

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Ministro tenta cativar Irão tendo em vista o Mundial de futebol

A Cartilha regressa neste dia histórico em que o do embaixador do Irão elogiou a magnífica diatribe do nosso ministro internacional. Enquanto ambos fazem contas de cabeça para saber quantos anos são precisos para matar 6 milhões judeus (não sei se leva mais tempo que 6 milhões de muçulmanos), prepara-se uma manifestação junto ao ministério (e todas as restantes delegações e apeadeiros do mesmo organismo) para protestar indignadamente contras as ofensas perpretadas. Assim aguardamos comparência com bandeiras com motivos Freitas para espezinhar e queimar, bem como apelar ao boicote de qualquer comunicado que volte a sair daquela caneta (no entanto, já terá saído novo comunicado e parece que o ministro usando os sofisticados poderes permitidos pelo choque tecnológico já confirmou que morreram mesmo 6 milhões de judeus, mas para que não morram mais 6, o melhor mesmo é não fazer mais caricaturas, nem uma série de outras coisas que a seu tempo serão comunicadas pelo porta-voz do Hezbollah encarregue de ditar as regras a serem seguidas pelos governos europeus). Pede-se ainda e com caracter de urgência que a União Europeia legisle sobre a proibição de tão condenáveis actos.
K. 23:39

quinta-feira, setembro 01, 2005

Que tal irem dar concertos só para África!?

Os U2 foram condecorados pelo PR. A minha alma está tão emocionada que nem consigo comentar. Felizmente Bono recuperou a presença de espírito e no concerto assegurou que era possível as religiões conviverem em paz.
K. 14:21

Descanso

Uma coisa boa teria Soares ser eleito. Acontecerão, provavelmente, menos intervenções públicas. E poderíamos descansar das suas ilustres opiniões e da sua destemperada fúria radical, que desmentem claramente a ideia de que estará velho. Não sei porquê, mas não o estou a ver a chamar bêbado ao Bush numa visita de estado.
K. 14:18

Poder

Não se percebem as críticas e louvores à candidatura soarista. Que está velho, que já lá esteve, que disse que não queria mais e voltou a querer. Nada disso interessa realmente. A única coisa que poderia realmente importar, não fosse devermos saber que este jogo há muito se afastou do que realmente deveria representar, são as razões que presidem a esta decisão. E esta não tem obviamente a ver com os louvores cantados, a experiência, a vitalidade, a energia, as ideias do futuro. Soares é candidato porque gosta e quer sê-lo e porque o PS acima de tudo está preocupado em ganhar as eleições. É uma decisão puramente ditada pela necessidade de vencer Cavaco. É uma questão de poder, como são sempre estas questões.
K. 14:12

DERBY

Segundo os nossos distintos comentadores preparamo-nos para uma mítica disputa presidencial entre Soares e Cavaco. Vai ser mais ou menos como um Sporting-Benfica. Vai-se fazer muito barulho e no dia seguinte muitos comentários e vivas ao novo presidente. Mas a vida continuará na mesma e os problemas também. Não vai ser o entusiasmo do embate que vai despertar Portugal. Ao contrário do que por aí se diz.
K. 14:06

sexta-feira, julho 08, 2005

Lamento...

Com a repetição, tudo nos parece monótono, tudo se nos afigura banal e inevitável. A todos, menos àqueles que foram abatidos, aos familiares, aos amigos e conhecidos e àqueles para quem o dia 7 de Julho de 2005 ficará, desgraçadamente, gravado na memória.

Tudo nos parece perdido, decadente, repetitivo, até as condenações que de mansinho logo explicam quem são os verdadeiros carrascos e a quem, só a muito custo, não se abrem as bocas para culpar os mortos por não terem contestado suficientemente o Ocidente (ou deverei dizer a América?) opressor.

Tudo, quase tudo, nos parece inútil!

Como sofremos todos...
K. 13:32

sexta-feira, junho 24, 2005

Mourinhos com Açucar

O tipo é o melhor treinador do mundo. É provavelmente o único comentador de futebol cujas apreciações são tidas como palavra sagrada. É também um sex simbol e estrela de filmes publicitários.
Agora vai também ser actor. O homem que comanda os destinos do Chelsea diz que aceitou participar nas gravações de "Morangos com Açucar" porque os filhos são viciados na telenovela. Assim é que é! Por amor ás crianças o pobre homem sacrifica-se a andar no meio de um monte de raparigas feiosas que (segundo consta) ele não deve apreciar nada... :)
GB 20:06

quinta-feira, junho 09, 2005

Paixões de Verão

Na procura de notícias da Sétima Arte fica-se a saber, quer se queira quer não, todo o tipo de estórias. Ora, acontece (como diria o outro) que Tom Cruise parece ter namorada nova, uma menina que eu vi esporadicamente há dois ou três anos a fazer de adolescente numa série que dava a seguir ao almoço. Parece-me a mim, e fazendo fé nas notícias sobre as públicas manifestações de afecto que o casal tem alardeado, que o Tom está com certeza apaixonado. Pode ser que dure, pode ser que não, mas não deixa de me comover a disponibilidade do rapaz para se tornar o alvo das brincadeiras alheias. Só mostra o entusiasmo e a devoção. E a cegueira, porventura. Mas não é o amor que nos cega?... Não... É o dinheiro... Não! A justiça?! Esqueçam. Vão mas é todos de fim-de-semana alargado. Vão para o Algarve que está lá pouca gente! E se virem a Katie, digam-lhe que o Tom é velho demais para ela.
K. 17:01

domingo, junho 05, 2005

Última Hora!!!!!

Júlio Magalhães acaba de anunciar no "Jornal da Uma", que a TVI é o canal mais visto na Madeira. Foge Jardim, foge! Os bastardos e os filhos da puta estão a tomar conta da tua terra! Ninguém vê a "RTP Madeira" e qualquer dia os ilhéus já não te respeitam!!!
GB 13:35

Ordenados e reformas

Facto 1: O ministro das Finanças Campos e Cunha acumula a reforma com o salário que recebe.
Facto 2: O primeiro ministro Sócrates quer acabar com essa bandalheira.
Facto 3: Campos e Cunha disse que tomará as melhores medidas para o país, mesmo que isso possa prejudicar o orçamento mensal lá de casa.
E agora?... Será que o ministro das finanças vai abdicar da reforma para continuar no governo ou, por outro lado, terá visto aqui a grande oportunidade para se pirar do executivo de Sócrates e arranjar outro biscate que dê menos nas vistas?
GB 13:26

Bastardos ou filhos da puta?

Alberto João Jardim tem uma grave dúvida existencial. Não sabe se há-de chamar bastardos ou filhos da puta aos jornalistas do continente. De qualquer das formas, segundo ele, uma das duas designações estará correcta para definir os profissionais da comunicação social.
Como é que o Imperador da Madeira está tão bem informado? Será que ele conhece assim tão bem as mães da malta da rádio, jornais e televisão? Onde é que anda a gastar o seu ordenado sr. Jardim? Grande maroto...
GB 13:09

segunda-feira, maio 30, 2005

NON!

O Non venceu, mas o autismo burocrata de Bruxelas parece ignorar a evidência e fechar os olhos para seguir em frente. Alheios a tudo, a todos, a qualquer coisa que não seja o destino a que se propuseram e que nos propuseram sem o nosso consentimento. O Non não é, para os iluminados condutores da Nova Europa única e unidimensional (um continente que parecem querer inventar a partir dos mapas dos seus gabinetes), o Não ao Tratado Constitucional, nem a recusa de uma Europa mais neoliberal, nem menos social (o que quer que isso queira dizer), nem a uma Europa mais federal, nem a uma ainda insuficientemente integrada, nem a uma Europa demasiado grande, pouco ocidental e/ou pouco católica. Não, nada! Para eles o Non não é mais que uma derrota de Chiraq (curiosamente ou não, um dos mais entusiastas e desbocados defensores deste novo modelo) e que só aos franceses diz respeito.

Depois do Non, o mínimo que se pede é que se pare para pensar. Alguma repercussão este resultado (a ser provavelmente amplificado quarta-feira com o quase certo não holandês) devia ter. Algo devia ser reflectido. Parece que não. Juncker já pôs de parte qualquer renegociação, qualquer reavaliação, deixando bem claro que só aos franceses compete ceder nesta disputa. E, timidamente, como quem não quer a coisa, já se percebe nas entrelinhas, que o objectivo é repetir os referendos até o resultado ser o certo.

Se o Sim espanhol foi a plena aceitação da Europa tal com está a ser desenhada, parece que o Non francês é apenas um percalço, um equívoco dos franceses que, coitados, não sabem o que fazem. Ainda não viram que o caminho é só um. E o professor não descansará enquanto os alunos não estiverem todos alinhados, quer queiram ou não queiram!
K. 14:35

sexta-feira, maio 27, 2005

Kumba Zissou

Vejo o novo filme de Wes Anderson, algo entre uma comédia too clever (para o meu gosto, pelo menos) e o puro e simples vazio emocional. Anyway, e o que realmente importa, é que percebi finalmente de onde vem a indumentária do putativo presidente, candidato, futuro, ex, qualquer coisa da Guiné-Bissau, Kumba Yalá, aliás membro da Team Zissou.



K. 18:47

Sidney Pollack e a mala de cartão

Hoje fui ver "A Intérprete" de Sidney Pollack, que tem Nicole Kidman e Sean Penn nos principais papeis. Ela vai bem e ele, muito bem. Até aqui não há novidades.
O filme é bastante razoável. Desenrola-se na babilónica sede das Nações Unidas, onde se falam quase todas as línguas. Até o português, vejam só!
A lingua de Camões pode ser ouvida por breves segundos pela voz de um empregado de limpeza. O rapaz tem um aspecto patético e bastante gay. Quando o vê, uma das distintas funcionárias da ONU até exclama com desdém: "Estes portugueses!..."
Resumindo e concluindo: Provavelmente aos olhos de Sidney Pollack continuamos a ser os coitadinhos que só podem aspirar a empregos menores. Será que o sr. realizador acha que parámos no tempo da Linda de Suza e da mala de cartão? Ou será ele um visionário que percebeu antes do dr. Constâncio a dimensão do nosso défice e chegou à conclusão que o melhor para todos nós seria emigrar e lavar escadas num qualquer país endinheirado? Se alguma destas hipóteses estiver correcta, rio-me da primeira e gostava de poder rir-me da segunda...
GB 00:35