Quinta-feira, Maio 27, 2004
DIA DE FEIRA: Isto hoje foi uma festa. Patrão fora, dia santo na loja. Mando três mails para fora da companhia, aumento violento de custos. Mas deixem lá, foi um dia sem exemplo. Vou desenvolver mais um bocadinho e daqui a pouco dou um salto à Feira. Do livro, claro!
QUEM CANTA, SEUS MALES ESPANTA: Os sons de um local de trabalho modificaram-se imenso nos últimos anos. A todo o momento podemos ser interrompidos por uma panóplia muito vasta de sensações. Pode ser a música da Pantera Cor-de-Rosa; pode ser música clássica; pode ser o tema da Missão Impossível; ou até um cântico da Juve Leo. E sem nos apercebermos já estamos a cantarolar a melodia, para desespero dos colegas
A PRIMEIRA VEZ: Depois de alguns testes ontem à noite, estou a experimentar pela primeira vez escrever para a Cartilha directamente do emprego. Finalmente descobre-se a careca. Passo o dia a mandar e-mails, produtividade: zero! O pior é se isto corre mal e gasto o meu tempo a escrever para o boneco.
Quarta-feira, Maio 26, 2004
Terça-feira, Maio 04, 2004
Domingo, Maio 02, 2004
Como engatar uma actriz porno…
“A descoberta”
O vizinho calmeirão do 6º D acaba de sair, depois de me ter chateado o juízo com a conversa do costume. “Os árbitros”, “o sistema”, “o treinador” são os fragmentos que restam, na minha cabeça, dum monólogo de vinte minutos, que pareceu um martírio de vinte anos. É sempre assim, depois dum jogo grande.
Mal a porta se fecha, percebo que ele se esqueceu dum saco de plástico preto, no meu sofá. Parece conter livros ou qualquer coisa que se leia. Será que o gajo adormece com Pessoa ou Camões na cabeceira? Às vezes sou mesmo utópico… E curioso. Vou bisbilhotar e descubro um jornal desportivo, uma revista de automóveis e outra, para adultos. A última chama-me particularmente a atenção. Não que eu precise dessas coisas, porque vejo muitas gajas boas ao vivo e a cores… Claro que vejo! É só estalar os dedos… Mas a modelo da capa é uma brasa! Uma loiraça incrivelmente parecida com a nova vizinha do 3ºC. Parecida, não! É igual! Só pode ser ela! Aquele mulherão que me faz suspirar. A miúda que está a dar-me a volta à cabeça!
Pensando bem, na última reunião de condomínio, à qual o calmeirão faltou, lembro-me de a ter ouvido dizer que era actriz e só fazia filmes alternativos. Filmes para um público, digamos, específico… Agora faz sentido…
“Estou à procura dum grande amor”, é a citação utilizada como título da grande entrevista publicada nas páginas centrais. “Não misturo trabalho com sentimentos”, diz ela mais à frente. “Tenho sofrido muito com namorados ciumentos”, é a frase que sustenta o estado de espírito actual da artista. Fiquei sinceramente comovido com aquela panóplia de emoções, expressa num tão profundo trabalho jornalístico. Fez-me pensar na vida. Na minha e na dela. Tinha de conquistar aquela mulher!
“A conquista”
Primeiro fiz trabalho de pesquisa. Passei a frequentar aquela secção do clube de vídeo, onde já não ia desde a minha puberdade. Vi de fio a pavio, toda a obra cinematográfica da vizinha dos olhos azuis. Ela é mesmo boa… Boa actriz, quero dizer… Tem alguma dificuldade nos diálogos, mas é coisa de somenos importância.
Depois foi só esperar pela próxima reunião de condomínio. Felizmente o chato do calmeirão faltou. Descobri que áquela hora da noite, ele costuma estar na escola de 2ª oportunidade. Abençoada alfabetização que afastou o único gajo capaz de lixar um plano traçado com tanta minúcia!
Lá está ela, à hora marcada. Responsável e pontual, como sempre a imaginei. Espero pelo momento certo e invento um personagem para mim. Digo que sou realizador. Ela mostra-se interessada. Comento que tenho um projecto para filmar no estrangeiro. Ela fica ainda mais interessada. Acrescento que procuro a mulher certa para o papel principal, mas não quero ninguém famoso. Ela abre um sorriso de orelha a orelha e diz – “Sou actriz”. “A sério?” – Perguntei. “A sério. Até lhe posso mostrar alguns trabalhos que fiz… Quer dizer… Podemos falar sobre isso, mais adiante…” – respondeu aquele raio de luz, sob a forma de mulher. “Interessante… Já fez cinema?” – Questionei. “Sim… Quer dizer, nada de especial… Mas posso ir a um casting, se você desejar” – rematou algo atrapalhada. “Tenho uma ideia melhor. Que tal irmos jantar amanhã?... Não. Amanhã tenho uma reunião com os produtores. Pode ser no dia a seguir?” – era a minha derradeira cartada. “Claro que sim!” – concluiu ela entusiasmada.
O jantar correu às mil maravilhas. Disse-lhe que era a única mulher capaz de dar vida à protagonista do meu filme. Ela quis saber mais pormenores sobre o projecto e deixou no ar que tinha alguma aversão a diálogos longos. Antes que eu perguntasse quantas palavras tinha, para ela, um “diálogo longo”, a minha vizinha justificou – “Não que tenha alguma dificuldade em decorá-los, mas… Mas… Mas acho que cortam o ritmo da acção! É isso! Cortam o ritmo da acção!”. “Também acho” – apressei-me em concordar – “Aliás, a tua personagem é uma rapariga surda-muda, com grande talento para as artes. Não tens que abrir a boca e ainda te arriscas a ser nomeada para um Óscar, um Globo d’Ouro, ou qualquer coisa desse tipo”. Acertei na “mouche”! Ela achou-me um homem sensível, com laivos de génio e ficou ansiosa por agarrar a oportunidade.
O resto da noite foi muito agradável e terminou à porta de casa da minha musa. Palavra puxa palavra e às tantas, beijámo-nos. Foi intenso. Muito intenso. Ela sabe o que faz… Tive que usar as mais profundas reservas de sangue frio, para recusar o convite que me aliciava a dar uma olhadela às tapeçarias persas da sala da moçoila. Semear hoje, para colher amanhã.
Fiquei dois dias sem dar notícias, até que finalmente recebi um sinal. Vi o nome dela escrito no visor do telemóvel. Aquela geringonça gritava desesperada, como se estivesse a pedir ajuda. Ignorei o apelo. Fui buscar uma cerveja ao frigorífico e engoli alguns amendoins, para ajudar a passar o tempo. Ao fim de dez minutos, achei que era suficiente. Liguei-lhe e pedi desculpa por não atender, mas era impossível interromper a reunião. Ela estava com saudades e receio de me ter dado a entender que era uma mulher fácil. Ainda não sei bem como, mas convenci-a de que sou rapaz com princípios. Mais um pouco e até eu acreditava!
Combinamos outro jantar. Depois do repasto, faço questão de levá-la a casa, mas desta vez entro. Ela está completamente louca e quer possuir-me. O sentimento é recíproco e não vou fazer-me de caro. Por entre os beijos ela diz que está a apaixonar-se por mim e quer contar-me algo importante. Pouso suavemente os meus dedos sobre os lábios dela e digo que, para já, não quero saber mais nada. Ela sorri e entrega-se, sem reservas.
Seguiram-se cenas de intimidade, semelhantes às que a vi fazer nos filmes “Branca de Neve e os Sete Matulões” e “O Senhor dos Anais”. Ainda bem que ela ainda não sabe que, de realizador, apenas tenho uma cadeira lá em casa…
